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Quer uma vaga na universidade pública? Chame Sílvio Santos.

Que o vestibular tem as suas incoerências, isso é verdade. Que o vestibular tem seus críticos e que tem muita gente que gostaria de que o exame fosse substituído isso também é verdade. Mas, se for substituir o vestibular, qual seria a maneira de se fazer a seleção dos alunos a ocuparem as vagas das universidades públicas?

Claro que a opção seria o sorteio. Óbvio. Especialmente para o professor da UNICAMP, Rubem Alves.

Não, eu não estou mentindo. Confira numa entrevista publicada pela revista Época (não me lembro qual edição):
* ÉPOCA - Mas os alunos precisam ter conhecimentos básicos em áreas como Matemática, Biologia ou Química, não?

* Alves - Para quê? Para passar no vestibular? Para esquecer tudo? Quem disse que tem de aprender isso? Por que eu tenho de aprender logaritmo neperiano? Não conheço ninguém que tenha usado isso. Se por acaso eu for precisar um dia na minha vida, estudo e aprendo. Não preciso me preocupar com isso na escola. E as pessoas não se dão conta de que todo esse conteudismo é perdido. Não sobra nada. Uma amiga minha, professora de Neuroanatomia na Unicamp, dizia que os piores alunos que ela tinha eram esses que apareciam em outdoors de primeiro lugar. Porque quando ela explica anatomia, um assunto cheio de complexidades, sempre tinha um que levantava a mão e perguntava: ''Professora, qual é a resposta certa?''. Ou seja, ele não entendia que esse negócio de ter sempre uma alternativa certa não existe. No
caso do médico, com um doente terminal, o que ele faz: Dá morfina ou continua com a quimioterapia? Não há resposta certa. É preciso aprender isso. E essas coisas não são ensinadas.

* ÉPOCA - O senhor chegou a pregar o fim do vestibular. Por quê?

* Alves - Já preguei, e quando falo nisso as pessoas acham que estou brincando. Quando eu era pró-reitor de graduação da Unicamp, queria um vestibular que avaliasse a capacidade de pensar dos alunos, e não a memória. Um professor me disse: A solução mais fácil é o sorteio. Dei uma gargalhada. Mas comecei a pensar e vi que é isso mesmo. A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira conseqüência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e
fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar. Em segundo lugar, acabariam os cursinhos. Se tiver sorteio, ninguém pode reclamar. Sorteio é sorteio. Acabaria o sofrimento psicológico dos alunos, que têm a auto-imagem destruída. Também acabaria o conflito entre pais e filhos.

* ÉPOCA - Mas um vestibular por sorteio poderia ter muita injustiça?

* Alves - Várias pessoas me dizem isso. Claro que poderia, mas não do tamanho da injustiça que existe no atual sistema de vestibular, que nada mais é que uma grande perda de tempo, de dinheiro, de inteligência e de conhecimento. Também me perguntam se qualquer aluno, sem o menor preparo, poderia entrar na universidade. Respondo que não. Haveria no final do ensino médio um exame no país inteiro para verificar se os alunos atingiram um ponto mínimo exigido. E não seria classificatório. Quem passasse poderia participar do sorteio. Quem fosse reprovado poderia refazer a prova depois.

* ÉPOCA - É polêmico...
* Alves - Não acho, não. Acho que é uma solução óbvia. É mais inteligente que o modelo que existe atualmente. E menos danosa.
Se não fosse a proposta de se fazer sorteio, a entrevista seria perfeita, pois tem muitas coisas interessantes e verdadeiras. Mas a proposta de se fazer sorteio estragou a entrevista por inteiro. Quer dizer então que, para concorrer a uma vaga numa universidade, chama-se o Sílvio Santos para fazer o sorteio das vagas. E aí, alea jacta est, é só cruzar os dedos e ficar aguardando?

Por sorte, uma proposta dessas não tem a mínima chance de passar adiante, muito menos de se concretizar.

Com relação ao que eu penso, tenho de reconhecer que o vestibular tem os seus pontos negativos e positivos. O principal ponto positivo é a meritocracia, ou de ganhar algo (no caso, uma vaga na universidade) por merecimento e também tem o fato de ser um método imparcial de seleção; não se olha o nome, ou sobrenome da pessoa, olha-se apenas o que a pessoa sabe (e realmente, não é levado em conta o nome do candidato). Mas, em compensação (e aí eu dou o braço a torcer para que o professor Rubem Alves disse), gasta-se muito dinheiro, expõe o candidato a uma carga emocional muito forte, privilegia os alunos de escolas particulares (a ponto de ter que criar cotas), privilegia mais a capacidade de memorização do candidato.

Sem contar o fato de que as escolas se "adequam" ao vestibular e ensinam aos alunos apenas o necessário e suficiente para se fazer uma boa prova de vestibular; enquanto que matérias e assuntos mais importantes para o dia-a-dia dos alunos e que transformem o aluno numa pessoa mais crítica não são lecionadas pelas escolas, porque não cai no vestibular.

Só que vestibular é quase igual ao capitalismo. Tanto um como o outro privilegiam algumas pessoas, tem as suas coisas boas, como as suas coisas ruins, mas as coisas ruins são mais visíveis e notórias, todo mundo sempre tem uma crítica para fazer contra ambos, só que ninguém achou algo melhor que os substituíssem.
 

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